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Wu Shu Tradicional
Histórico - Templo Shaolin
Para designar as artes marciais chinesas o termo mais correto seria wushu, mas durante a história, recebeu devidos certos contextos, diversos nomes. Foi chamado de guoshu (arte nacional), Jiji. Com a Revolução Cultural, a China voltou a adotar o termo wushu para representar sua arte marcial. Mas o mais conhecido e usado no Ocidente é o kung fu (habilidade adquirida). É mais correto usar o termo “kung fu” para designar a habilidade de uma pessoa em determinada area e não somente em artes marciais. Assim podemos dizer, por exemplo, que um pintor tem bom kung fu em pintar quadros ou um medico tem kung fu em cirurgias. Hoje difundido em todo o mundo, vem ganhando força através de novas formas criadas com a intenção de unificar a arte e ingressar nas Olimpíadas, conhecido como wushu moderno. A China conta com uma história de mais de 5000 anos e apesar de haverem vestígios de humanos habitando suas terras há muito tempo atrás, a primeira Dinastia a surgir foi a Xia (2207a.C. - 1766 a.C.), com o lendário Imperador Yue. Neste período podem ser encontradas pedras usadas como faca, madeiras como porretes e outros fatores arqueológicos que mostra de certa forma o surgimento do wushu, não como uma arte marcial, mas sim, como arte de caça e defesa contra outros animais.Já na Dinastia Shang (1765 - 1122 a.C.), com o uso dos metais (bronze), começou a se evidenciar o aprimoramento do wushu para fins bélicos, sendo usado também para disputas entre tribos.
Como visto, o wushu servia para sobrevivência aos homens primitivos e com a evolução da sociedade, técnicas foram sendo desenvolvidas e aprimoradas, sempre permeando o caráter de sobrevivência em seus mais diversos sentidos. Nos Períodos sucessivos, com as freqüentes lutas entre imperadores e dinastias, o poder das armas e a criação de novos instrumentos de guerra, alavancou o wushu como técnicas de guerra. O período dos Estados Guerreiros (480-221 a.C.) produziu muitos estrategistas que enfatizavam a importância do wushu na construção de um exército forte. Dos notáveis mestres do wushu em luta de espadas naquele tempo, muitos eram mulheres. Concursos de wushu eram realizados para escolher novos generais. Shi Huang Di, Imperador da Dinastia Qin (248-207 d.C.), unificou a China dos “Estados Combatentes”, formando um estado feudal único, com poder centralizado. Construiu a Muralha da China, unificou também a escrita, moeda, unidade de medida e etc. Nos tempos de paz os guerreiros, generais, praticavam suas técnicas a fim de aperfeiçoá-las para a guerra, com isto, talvez tenha surgido às primeiras formas (kati) rudimentares e não sistematizadas, como também torneios para demonstrar suas habilidades em wushu. Podemos notar nesta época, combates denominados Jiaodi, onde lutavam utilizando capacetes com chifres. Na Dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.) o wushu começou a deixar de ser apenas bélico e a desenvolver suas outras facetas. Hua Tuo, famoso médico desta dinastia, criou exercícios para a saúde que imitava os movimentos do tigre, cervo, urso, macaco e da garça. Tal técnica é conhecida como wu qin xi (jogo dos cinco animais) e teve grande influência para a saúde nos anos posteriores e o taoísmo começou a influenciar na filosofia de luta. Durante a Dinastia Jin (265-420 d.C.), Ge Hong (284-364 d.C.), médico e filósofo taoísta, integrou o qi gong ao wushu. O qi gong é um dos ramos da medicina tradicional chinesa.
Na Dinastia do Sul e do Norte (420-589 d.C.), o wushu já sobre grande influência do budismo e taoísmo foi incorporado ao templo shaolin primordialmente como ajuda para o fortalecimento do corpo e depois como defesa contra invasores e agressores. É neste período que o wushu sofre uma enorme mudança em sua história, advindo da chegada de um monge indiano para a China, chamado Bodhidharma ou Da Mo em chinês, que com o tempo deu-se à origem ao wushu de shaolin. Nas Dinastias Sui (581–618 d.C.) e Tang (618-907 d.C.), com a prosperidade, o desenvolvimento tecnológico, da siderurgia, construção naval e as poucas guerras que surgiam, levou a pratica do wushu ter características mais esportivas e pessoas de qualquer nível na sociedade passou a praticá-lo. Japão, Coréia e outros países também puderam ter contato com as artes marciais chinesa, dando origem a outras artes de luta. As formas tornaram-se de muita importância e de característica marcante a este lado esportivo (demonstrativo) do wushu. Na Dinastia Ming (1368-1644 d.C.) o wushu prosperou como nunca. Época onde se desenvolveu a maioria dos estilos tradicionais existentes hoje e de grandes obras literárias e manuais. Durante a Dinastia Qing - Manchu (1644-1911 d.C.), apesar da proibição do wushu entre o povo, estabeleceu-se uma grande quantidade de sociedades secretas dedicadas à divulgação da arte e contra o império Qing. O teatro de opera chinesa contribuiu ao propósito de tais sociedades, onde podiam se comunicar e ensinar secretamente. O uso de armas foi incorporado ao wushu de shaolin, devido muitos generais e imperadores se refugiar no templo. Uma passagem muito conhecida e trágica desta época é a Rebelião dos Boxers. Com a proclamação da Republica (1912-1949), o wushu foi ensinado em todo o país, o sentimento nacionalista, a abertura de muitas “escolas” e “academias”, como por exemplo, a Jing Wu de Shanghai e a presença de grandes mestres de renome, o wushu passou a denominar-se guoshu (arte nacional).
Em 1949, o líder comunista Mao Zedong tomou o poder e gerou uma era conhecida como Revolução Cultural, e, em 1955 a Comissão de Cultura Física e Esportes da China sintetizou as formas modernas de wushu, conhecidas popularmente como “wushu olímpico”, com o intuito de padronizar e divulgar a arte ao resto do mundo. Hoje muito destas formas já foram reformuladas, visando à difusão das artes marciais chinesas como forma desportiva de alto nível e para a sua participação nas Olimpíadas. No entanto foi uma época de muita perseguição política aos mestres tradicionais e por tal motivo muitos deles imigraram para Taiwan, Hong Kong e outros paises. Somente na metade do século XX que alguns mestres chineses estabelecidos fora da China, passaram a transmitir seus conhecimentos a pessoas não chinesas, ficando conhecido como kung fu, principalmente no ocidente. O wushu está relacionado não apenas ao lado marcial, mas a todos aspectos da cultura chinesa: filosofia, literatura, medicina, música, arte e etc, incorporadas de forma intrínseca durante seu desenvolvimento. No Brasil o wushu, mais conhecido como kung fu, iniciou-se na década de 60, com a vinda dos primeiros mestres: Moy Gin Yin, Li Hon Kay, Chiu Ping Lok (Fei Hok Phai), Li Wing Kay (Garras de Águia) e Chan Kowk Way (Shaolin do Norte) e posteriormente já se organizava campeonatos e academias. Hoje já foram criadas federações por todos estados e a confederação brasileira, como também na década de 90 a criação da IWUF - International Wushu Federation (entidade mundial do esporte). Hoje o wushu se expressa de duas maneiras: as Formas (dao lu/kati) e boxe chinês (sanshou/sanda). O primeiro demonstra mais o seu lado artístico e estético, mas não deixa de possuir as técnicas de luta em seus movimentos, enquanto o segundo já é a aplicação real de tais técnicas. O wushu está dividido em “estilos” (escolas), cada qual, com suas características, filosofias e conceitos próprios, devido a China ser um país de etnia diversa e de regiões geográficas contrastantes.
Templo Shaolin
O Templo Shaolin é considerado importante para os chineses, tanto no aspecto marcial, como religioso e filosófico. Comumente relacionado com o Budismo na China, origem do Zen Budismo e do wushu de shaolin, tem exercido influência em todo o mundo durante seus mais de 1500 anos. Construído em 495 d.C., durante a Dinastia Wei do Norte, localizado em Songshan, perto da cidade de Denfeng, província de Henan, tinha como propósito servir de lar a um monge indiano que viera pregar e traduzir os textos budistas. De acordo com documentos, foi construído no 19° ano do reinado de Xiao Wen (Wei do Norte) para abrigar o monge indiano Ba Tuo e seus dois discípulos chineses Weiguang e Weineng, que estavam traduzindo textos e ensinando o Budismo Hinayana. O nome Shaolin se da devido o templo se encontrar na floresta aos pés do monte Shaoshi, tendo como significado “Jovem Floresta” (shao= jovem, novo lin=floresta). Neste tempo não se encontram relatos de habilidades marciais dentro do Templo. Aproximadamente em 520 d.C., outro monge viaja a China, seu nome era Bodhidharma. Nasceu em uma família real do sul da Índia, por volta de 470 d.C., sendo orientado no Budismo sobre a tutela do mestre Prajnata (27º patriarca do Budismo). Tornou-se 28° patriarca e seguindo as orientações de seu mestre segui em peregrinação pela China afim de divulgar o Budismo. Percorreu por quase toda a China, formando discípulos. Em certa época, Da Mo – foi como ficou conhecido na China, foi convidado pelo Imperador Wu Di da Dinastia Liang a ir até seu governo.
Wu Di esperava por méritos por estar ajudando a traduzir textos budistas para o chinês e não compreendendo os ensinamentos de Da Mo (que eram mais pratico do que salvacionista e ritualista) ficou muito irritado e aborrecido, mandando Da Mo embora de seu reino. Bodhidharma continuou sua missão até chegar em Shaolin. Diz a história, que Da Mo entrou em uma caverna perto do pico Wuru e por lá se sentou em meditação por nove anos. Sua contemplação durante estes anos gerou a imagem de seu rosto na parede, podendo ser vista até nos dias de hoje. Ao ingressar no templo, viu que os monges estavam fracos e alguns debilitados não podendo praticar por horas a meditação. Com isto, para resolver tal problema, Da Mo passou a ensinar exercícios de respiração, similares ao yoga (Da Mo aprendeu yoga, vayramushti - arte dos guerreiros hindus e alguns relatam também que aprendera o wu qin xi), para fortalecer seus corpos e mentes. Tais exercícios estão registrados em dois livros (manuais): Shi Sui Jing – tratado da lavagem da medula e Yi Jin Jing – tratado da flexibilização dos tendões. A Província de Henan estava dividida entre as dinastias Wei e Liang e as ameaças de bandoleiros e assaltantes eram freqüentes aos monges, assim desenvolveram o aspecto de combate das técnicas ensinadas por Da Mo ficando conhecidas como Shi Ba Luo Han Shou, “As Dezoito Mãos de Luo Han. Do aspecto religioso, após sair da caverna e implantar a meditação e seus conceitos aos monges, Bodhidharma criou o ramo budista denominado Chan, ou Zen Budismo. O Zen Budismo é baseado na idéia de que, já que todos os seres sencientes têm uma natureza búdica, para atingir a iluminação é apenas necessário descobrir este Buda interior. - Hsing Yün. Após sua morte há uma lenda que diz: anos depois de sua morte um oficial chinês encontrou Bodhidharma andando nas montanhas da Ásia Central, calçado apenas com uma das sandálias. Da Mo disse-lhe que estava a caminho de volta à Índia.
Os monges ao saberem desta história abriram o tumulo de Da Mo e encontraram apenas o outro par da sandália. Sua contribuição à filosofia chinesa é enorme e ficou marcada para sempre na historia, como também para as artes marciais, integrando o treinamento mental com o treinamento físico. Mas é bom ressaltar que o wushu chinês e nem o kung fu shaolin são criações de Bodhidharma, já que, o wushu sempre existiu antes de Da Mo e independente do Templo. No final da Dinastia Sui (581–618 d.C.) há uma história muito conhecida dos monges ajudando Li Shimin, do estado de Qin, derrotar Wang Shichong, do estado de Zheng. Com apenas 13 monges liderando as pessoas locais a um ataque a Wang, Li Shimin saiu-se vitorioso. Concedeu muitas gratificações aos monges e nomeou Tan Zong como general sênior. Li Shimin acabou-se tornando o primeiro imperador de uma nova dinastia, a Tang. Há muitas outras historias de envolvimento dos monges e de suas habilidades marciais. Anos mais tarde, Chue Yuan (Zhue Yuen), o monge superior (abade) de shaolin viajou pela china para aprender o wushu de várias regiões e convidando os melhores lutadores à Shaolin. Durante sua viajem conheceu Li Sou e Bai Yu Feng (famosos artistas marciais), ingressando-os como monges ao Templo Shaolin. É creditado a Bai Yu Feng a melhoria destas técnicas aliando com as que já conhecia, aumentando a gama de técnicas para 170. Também dividiu a arte shaolin existente em 5 animais: Dragão, Tigre, Serpente, Leopardo e o Grou. Isto ficou conhecido mais tarde como o Shaolin Quan ou o Shaolin Kung Fu. Durante todas as Dinastias, pode ter a contribuição em sua arte por diversos generais, poetas, filósofos e pessoas famosas, incluindo o uso de armas e etc, tornando-se assim o mais completo e conhecido sistema de wushu do mundo. O Templo Shaolin e as artes marciais foram proibidas e banidas durante a dinastia Qing, devido o medo do imperador das habilidades dos monges, e estes treinavam secretamente, como também todos os mestres da época que residiam fora do templo.
E de uma época onde era considerado o Templo n° 1 abaixo do céu, com seus milhares de monges guerreiros, reduziu-se a umas centenas deles. Na sua história o templo Shaolin foi afetado por incêndios e algumas traições. Uma delas é no ano de 1733, onde um monge noviço abriu as portas para os soldados inimigos incendiá-lo. Deste fato sobreviveram apenas cinco monges (mestres Bai Mei, Cheen Sin, Mui Hin, Fung To Tak, e N´g Mui) e alguns discípulos. E o incêndio mais catastrófico ocorreu em 1928, quando as tropas de Jiang Jie Shi (xian kai xek), um general da guerra, ateou fogo ao templo, que queimou por dias, destruindo valiosos documentos que relatavam a história do templo e o desenvolvimento de sua arte. As estruturas que sobreviveram ao incêndio foram a Entrada da Frente, o Salão de Convidados, o Pavilhão Bodhidharma, o Salão do Manto Branco, a Floresta das Placas de Pedras e a Câmara dos Mil Budas. Em 1983, havia apenas 5 monges residindo no templo e sua popularidade e historia estava em baixa, mas graças aos incentivos do governo em popularizar o wushu e filmes como “O Templo de Shaolin” de Jet Lee, este triste problema mudou. Hoje é um ponto turístico mundialmente conhecido tanto pela sua arte marcial como por sua religiosidade. Ainda existem muitos monges residindo no templo, se ocupando da pratica budista, deveres no templo e pratica de kung fu. Também organizam demonstrações por todo o mundo. Mas a maioria das antigas técnicas já não existe mais, se perderam durante a longa historia do mais famoso templo do mundo, o Shaolin.Infelizmente, dos muitos estilos antigos pouco sobreviveu e o que existe hoje em Shaolin é a reminiscência destas técnicas milenares e estilos recentes. Paralelamente, os outros templo também desenvolveram seus estilos durantes os anos, como por exmplo os templos de Fujian (Fukien -estilos do sul) e Wudang (na qual se credita a origem do Tai Chi por Zhang San Feng).
Wu Shu moderno
O wushu moderno é a síntese do tradicional wushu da China. Desenvolvido nos anos 50 pela Comissão de Cultura Física e Esportes da China, a pedido de Mao Zedong, com o objetivo de se tornar um esporte de alto nível com reconhecimento mundial. Mas o movimento para tornar o wushu popular, pode-se dizer que começou desde 1928, com o Instituto Central de Nanjing, criado pelo governo da época. Muitos mestres renomados foram convidados a ensinarem e divulgarem a arte. Já em 1936, uma equipe formada por 9 membros, demonstrou o wushu nos Jogos Olímpicos de Berlim, recebendo muitos elogios. Na década de 50, houve grande movimentação no wushu, criando as novas formas e estabelecendo as primeiras regras de competições. E nos anos seguintes, torneios foram efetuados, instituições criadas e tornou-se esporte oficial em eventos. Em 1979 experimentos com o sanshou foram feitos em competições, entrando como evento oficial nas competições do Campeonato Asiático em 1989. Criada em 1990, a Federação Internacional de Wushu (IWF), foi reconhecida oficialmente pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1999. A mais de 20 anos esta arte vem se propagando pelo mundo e hoje a IWF conta com mais de 75 países associados por todos continentes e em 2008 a China ira presidir os Jogos Olímpicos, uma grande chance do wushu se tornar olímpico. Atualmente a Federação chinesa e a Internacional de wushu, vêm trabalhando para este objetivo. O wushu já faz parte de universidades como curso regular na China, com mestrado e doutorado pra quem quer se aprofundar mais seus conhecimentos. As formas, conhecidas também como wushu olímpico, se dividem entre características do sul e do norte, cada qual contendo suas peculiaridades. Para aumentar ainda mais as chances de esporte olímpico, novas formas foram criadas tendo como meta o alto, difícil, beleza e inovação.
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